Um módulo de 907 watts com 29,2% de eficiência certificada. Não é um protótipo de laboratório. É o próximo passo real da energia solar — e chegará ao mercado em 2028.
A 1 de junho de 2026, a fabricante chinesa Trina Solar anunciou aquele que é o módulo solar com maior potência e eficiência já concebido para produção industrial em larga escala. O novo painel tandem n-type TOPCon-perovskita atingiu uma eficiência de conversão de painel completo de 29,2%, certificada pela entidade alemã TÜV SÜD, sendo desenvolvido para produção em massa e não para uso laboratorial.
Para perceber a dimensão disto: os melhores painéis que hoje encontra à venda em Portugal — painéis monocristalinos de alta eficiência com mais de 22% — ficam sete pontos percentuais abaixo. Sete pontos que, num telhado ou num campo fotovoltaico, significam mais energia com menos espaço, menos estrutura e menos custo por watt produzido.
Tabela de Conteúdos
Potente painel solar de 907W – A tecnologia que coloca dois painéis solares num só
A inovação central deste módulo está na sua arquitetura em dois terminais. O módulo combina uma célula de silício cristalino TOPCon n-type na base com uma célula de perovskita no topo, com o objetivo de absorver uma parte mais alargada do espectro solar do que os módulos convencionais de silício de junção única.
Pense assim: o silício convencional desperdiça uma parte significativa da luz solar — simplesmente não consegue convertê-la. A perovskita capta exatamente os comprimentos de onda que o silício ignora. Juntos, os dois materiais aproveitam o espectro solar de forma muito mais completa.
O módulo mede 2.384 mm por 1.303 mm e usa tecnologia de wafer de 210 mm, incorporando deposição de película de perovskita em grande área, tecnologia de contacto de recombinação em túnel e encapsulação de alta fiabilidade.
Um dos obstáculos históricos da perovskita tem sido a dificuldade em manter uniformidade quando se escala de uma célula pequena para um painel grande. A empresa utilizou um processo de slot-die coating com cristalização assistida a vapor para melhorar a uniformidade da película em camadas de perovskita de grande área, enquanto uma camada de túnel de óxido de índio-estanho (ITO) composta foi usada para reduzir as perdas de recombinação entre as células superior e inferior.
Passa nos testes que qualquer painel comercial tem de passar
Recordes de eficiência em laboratório são frequentes no setor fotovoltaico. O que distingue este anúncio é que o módulo já ultrapassou os testes de fiabilidade que qualquer painel convencional precisa de cumprir antes de entrar num telhado.
O painel passou nos testes de fiabilidade IEC 61215 e IEC 61730, incluindo degradação induzida por potencial (PID), calor húmido, ciclagem térmica e envelhecimento por radiação ultravioleta. Estes são os mesmos critérios exigidos a qualquer módulo vendido comercialmente na Europa — incluindo em Portugal.
A encapsulação foi especialmente desenvolvida para proteger a perovskita da humidade, um ponto crítico desta tecnologia. O painel utiliza encapsulação em poliolefina elastomérica (POE) co-extrudida em dupla camada e uma folha traseira de baixa permeabilidade ao vapor de água, juntamente com materiais de selagem específicos para perovskita.
Um historial de 37 recordes mundiais
Este lançamento não é um acontecimento isolado — é o culminar de vários anos de avanços sistemáticos. A Trina Solar afirma ter estabelecido ou superado recordes mundiais em eficiência de célula solar ou potência de módulo 37 vezes.
Em dezembro de 2025, a empresa anunciou que uma célula tandem industrial no formato 210 mm half-cut atingiu uma eficiência certificada de 32,6%, enquanto um módulo tandem de tamanho standard integrado com essas células atingiu 865 W de potência de pico — ambos verificados de forma independente por organismos de testes europeus e descritos como recordes mundiais para formatos industrialmente relevantes.
Agora o gráfico de evolução da potência dos módulos solares tandem ao longo do tempo:
O Dr. Yifeng Chen, vice-presidente da Trina Solar, descreveu os resultados como “um marco para a fotovoltaica de próxima geração de alta eficiência, destacando o enorme potencial da tecnologia”.
Agora, com 907 W e 29,2% de eficiência de painel completo, a empresa deu mais um passo — desta vez focado na viabilidade industrial real.
O que muda para quem instala painéis em Portugal
Portugal desfruta de uma irradiação solar entre 1.600 kWh/m² por ano no Norte e 2.200 kWh/m² no Algarve — uma das melhores condições da Europa para energia fotovoltaica. Cada ponto percentual ganho em eficiência tem aqui um impacto especialmente elevado.
Em 2025, Portugal ultrapassou os 180.000 prosumidores (prosumidores – termo derivado da junção de produtor e consumidor) são agentes ativos que deixaram de ser meros espetadores no mercado. O conceito aplica-se maioritariamente a indivíduos ou empresas que produzem a sua própria energia) registados, um aumento de 40% face a 2023, segundo a DGEG. Este crescimento acelerado cria uma base de utilizadores que beneficiará diretamente das próximas gerações de tecnologia — incluindo módulos tandem como este.
Para quem está hoje a planear uma instalação doméstica ou a dimensionar um projeto de maior escala, a pergunta legítima é: devo esperar? A resposta honesta é que depende. Os painéis disponíveis atualmente são eficazes e os subsídios do Fundo Ambiental continuam ativos em 2026.
Mas quem está a preparar projetos com um horizonte de instalação mais longo — especialmente ao nível empresarial ou agrícola — tem razões concretas para incluir nos seus cenários uma tecnologia com eficiências próximas dos 30%.
Quando chega — e porque a espera tem sentido
A Trina Solar planeia acelerar a produção da sua linha de módulos tandem perovskita-silício em 2026, embora os envios comerciais em larga escala estejam previstos para 2028-2029.
Este intervalo de dois a três anos não é burocracia — é o tempo necessário para garantir que uma célula que funciona hoje também funcionará dentro de 25 anos. A perovskita tem um historial conhecido de instabilidade a longo prazo, e a Trina Solar está claramente a construir a prova de que esse problema está resolvido antes de colocar o produto no mercado.
A tecnologia tandem de perovskita tem potencial para atingir eficiências teóricas de até 43%, segundo a própria empresa — um número que coloca o teto tecnológico muito acima do que qualquer painel de silício pode alguma vez alcançar.
O módulo de 907 W não é o destino final desta corrida. É mais um marco num caminho que está a redefinir o que a energia solar pode ser.