Portugal Continental produziu 75,6% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis entre janeiro e junho de 2026, o quarto melhor resultado da Europa. Durante 692 horas do semestre — praticamente 29 dias somados —, o país nem sequer precisou de recorrer a gás natural para satisfazer o consumo elétrico.
Os dados constam do Boletim Eletricidade Renovável de junho de 2026, divulgado esta semana pela APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis, e confirmam que 2026 está a ser o ano mais limpo de sempre para o setor elétrico nacional.
Para quem tem painéis solares em casa, conduz um elétrico ou simplesmente vê a fatura da luz todos os meses, este boletim traduz-se em algo concreto: menos dependência do gás importado, preços grossistas mais baixos e uma rede elétrica que já lida, com naturalidade, com picos de produção eólica e solar que há uma década seriam impensáveis.
Key takeaways: o essencial do semestre
- 75,6% da eletricidade produzida em Portugal Continental teve origem renovável entre janeiro e junho de 2026.
- 692 horas não consecutivas (quase 29 dias) com consumo totalmente coberto por renováveis.
- 48,8 €/MWh foi o preço médio do MIBEL no semestre, menos 22,9% do que em 2025.
- 3 930 milhões de euros de poupança induzida no mercado grossista pela produção renovável.
- Portugal mantém o 4.º lugar europeu em incorporação renovável, atrás de Noruega, Dinamarca e Áustria.
Tabela de Conteúdos
Quanto pesaram as energias renováveis na eletricidade portuguesa neste semestre?
Dos 25 806 GWh gerados em Portugal Continental entre janeiro e junho, cerca de 19 509 GWh — três em cada quatro unidades — vieram de fontes limpas. Este resultado não surge isolado: reflete um investimento contínuo em capacidade eólica e, sobretudo, solar fotovoltaica, que tem crescido a um ritmo superior ao de qualquer outra tecnologia nos últimos dois anos.
Em termos práticos de operação de rede, valores desta grandeza já obrigam os operadores a gerir excedentes de produção em determinadas horas, um desafio que a APREN identifica como o próximo grande obstáculo do setor: garantir que a rede de transporte e as soluções de armazenamento acompanham o ritmo da nova capacidade instalada.
O que significam, na prática, as 692 horas com eletricidade 100% limpa?
Em 692 horas não consecutivas do semestre, a produção renovável foi, sozinha, suficiente para cobrir todo o consumo elétrico nacional, sem qualquer contributo de centrais a gás.
Estas janelas ocorrem tipicamente de madrugada ou em dias de vento forte combinado com boa exposição solar, quando o consumo é mais baixo e a produção eólica e fotovoltaica atinge o seu pico.
Para o consumidor, estas horas coincidem normalmente com os períodos em que a eletricidade é mais barata no mercado grossista — motivo pelo mais para quem tem tarifários indexados ou baterias domésticas ajustar o consumo (carregar o carro elétrico, ligar a máquina de lavar, carregar a bateria solar) a estas janelas de produção limpa.
Como evoluiu o preço da eletricidade no mercado grossista?
O preço médio do MIBEL em Portugal fixou-se em 48,8 €/MWh no acumulado do semestre, uma descida de 22,9% face ao período homólogo de 2025. A relação é direta: mais eólica e solar na rede significa mais horas com custo marginal próximo de zero, o que empurra o preço médio para baixo e beneficia sobretudo consumidores com contratos indexados ao mercado grossista.
| Indicador (1.º semestre 2026) | Valor |
|---|---|
| Produção total de eletricidade | 25 806 GWh |
| Produção renovável | 19 509 GWh (75,6%) |
| Horas com consumo 100% renovável | 692 horas (~29 dias) |
| Preço médio MIBEL | 48,8 €/MWh (-22,9% face a 2025) |
| Poupança em gás natural evitado | 544 M€ |
| Poupança em eletricidade importada evitada | 357 M€ |
| Poupança em licenças de CO₂ evitadas | 356 M€ |
| Poupança total induzida no mercado (PRE renovável) | 3 930 M€ |
Que capacidade renovável foi instalada em Portugal nos últimos anos?
Entre 2016 e maio de 2026, a capacidade renovável instalada em Portugal Continental cresceu 9 115 MW, um aumento de 68,0%, e já representa 79,4% de toda a potência elétrica instalada no país.
Só entre dezembro de 2025 e maio de 2026, a potência renovável expandiu-se em 578 MW, dos quais 372 MW em solar fotovoltaico — 201 MW em autoconsumo e produção descentralizada e 171 MW em grandes centrais centralizadas.
Este crescimento do autoconsumo é o que mais afeta o dia a dia dos leitores do portal-energia.com: cada vez mais lares e empresas instalam painéis solares próprios, e o efeito agregado dessas milhares de instalações individuais já pesa de forma visível nos números nacionais.
Junho de 2026: eólica e solar fotovoltaica lideram um mês típico de verão
Em junho, 71,0% da eletricidade produzida em Portugal Continental teve origem renovável, correspondendo a 2 380 GWh de um total de 3 351 GWh gerados. A eólica liderou com 25,9% do total, seguida de muito perto pela solar fotovoltaica, com 24,6% — um equilíbrio raro entre as duas tecnologias, que normalmente compensam uma a outra consoante a estação do ano.
- Consumo nacional em junho: 4 234 GWh
- Saldo importador mensal: 1 447 GWh
- Horas com consumo 100% renovável no mês: 14 horas não consecutivas
- Poupança em gás natural evitado: 102 M€
- Poupança em eletricidade importada evitada: 6 M€
- Poupança em licenças de CO₂ evitadas: 65 M€ (0,8 MtCO₂eq evitadas)
O que diz a APREN sobre estes resultados?
Susana Serôdio, Coordenadora de Políticas e Inteligência de Mercado da APREN, sublinha que os dados de fecho do semestre confirmam a robustez estrutural das renováveis em Portugal, que já asseguram mais de três quartos da eletricidade nacional.
Para acompanhar este ritmo de crescimento, a responsável defende investimento urgente na modernização das redes de transporte, em novas soluções de armazenamento de larga escala e em regras de mercado mais flexíveis, de forma a garantir que toda a energia limpa produzida é plenamente integrada e valorizada.
A mensagem da APREN aponta para o verdadeiro gargalo do setor a partir de agora: já não é a falta de capacidade renovável instalada, mas sim a capacidade da rede e do mercado para absorver essa produção sem desperdício. É um tema que deve dominar o debate energético português nos próximos anos, à medida que mais parques eólicos, centrais solares e sistemas de baterias entram em operação.
Perguntas frequentes sobre a produção renovável em Portugal
Qual foi a percentagem de eletricidade renovável em Portugal no primeiro semestre de 2026?
75,6% da eletricidade produzida em Portugal Continental entre janeiro e junho de 2026 teve origem em fontes renováveis, segundo dados da APREN.
Portugal já teve dias inteiros com eletricidade 100% renovável?
Não em dias corridos, mas em horas somadas: o país registou 692 horas não consecutivas no semestre com consumo totalmente coberto por renováveis, o equivalente a cerca de 29 dias.
Qual é a tecnologia renovável que mais eletricidade produz em Portugal?
Em junho de 2026, a eólica liderou com 25,9% da produção total, seguida de muito perto pela solar fotovoltaica, com 24,6%.
Como afeta a produção renovável o preço da eletricidade?
O preço médio do MIBEL desceu 22,9% no primeiro semestre de 2026 face ao ano anterior, fixando-se em 48,8 €/MWh, uma tendência associada ao maior peso da eólica e da solar no mercado grossista.