Em julho, a energia solar foi, pela primeira vez, a tecnologia que mais eletricidade forneceu ao sistema elétrico nacional, ao assegurar 19% do consumo do país. O dado, divulgado nos dados técnicos mensais da REN – Redes Energéticas Nacionais, marca uma mudança estrutural no mix energético português, onde o solar ultrapassa agora a hídrica e a eólica num mês isolado.
Enquanto engenheiro a acompanhar de perto o setor solar e eólico português, este resultado não é uma surpresa estatística isolada: confirma uma tendência que já era visível no terreno há pelo menos dois verões, em instalações de autoconsumo e em centrais que geram claramente mais nos meses de maior irradiação.
O crescimento acelerado da potência fotovoltaica instalada, tanto em grandes centrais como em autoconsumo doméstico e industrial, está a alterar a ordem de mérito das fontes renováveis portuguesas.
Key takeaways
- 19% do consumo elétrico nacional em julho foi assegurado por energia solar — o valor mais alto de sempre para esta tecnologia num único mês.
- A produção renovável no seu conjunto abasteceu 53% do consumo em julho.
- A hídrica (16%) e a eólica (13%) ficaram, pela primeira vez, atrás do solar no ranking mensal de fontes renováveis.
- Nos primeiros sete meses do ano, a fotovoltaica soma 12% do consumo, ainda atrás da hídrica (27%) e da eólica (24%).
- O consumo de eletricidade cresceu 3% em termos homólogos em julho, prolongando a tendência de subida do ano.
Que percentagem de eletricidade veio da energia solar em julho?
A energia solar foi responsável por 19% do consumo elétrico nacional em julho, o valor mais elevado alguma vez registado para esta tecnologia num mês, segundo os dados técnicos da REN. Em suma, o fotovoltaico deixou de ser um complemento às restantes renováveis para passar a liderar o abastecimento renovável mensal.
Este resultado reflete diretamente o ritmo de instalação de nova potência solar em Portugal nos últimos anos, tanto ao nível de grandes centrais ligadas à rede como de sistemas de autoconsumo em telhados residenciais e industriais — um segmento que qualquer instalador ou proprietário de sistema fotovoltaico com bateria já sente no terreno, através de produções diárias claramente superiores nos meses de verão.
Como se repartiu a produção renovável em Portugal em julho?
O ponto-chave é: das quatro grandes fontes renováveis nacionais, o solar liderou pela primeira vez, com a hídrica e a eólica a ocuparem a segunda e terceira posições.
| Fonte de produção | Peso no consumo (julho) | Índice de produtibilidade |
|---|---|---|
| Solar fotovoltaica | 19% | 0,89 |
| Hídrica | 16% | 1,26 |
| Eólica | 13% | 0,71 |
| Biomassa | 5% | — |
| Produção não renovável | 13% | — |
| Saldo importador | 34% | — |
De acordo com os dados técnicos da REN, o índice de produtibilidade hídrica (1,26) indica um mês acima da média histórica para esta tecnologia, enquanto o índice eólico (0,71) revela um julho fraco em termos de recurso de vento.
O índice solar, em 0,89, ficou ligeiramente abaixo do valor de referência, o que reforça que o peso recorde do fotovoltaico se deve sobretudo ao crescimento da potência instalada e não a um mês de irradiação excecional.
O que é o índice de produtibilidade e porque interessa aos consumidores?
O índice de produtibilidade compara a produção real de uma tecnologia renovável num determinado mês com a sua produção média histórica de longo prazo para o mesmo período. Um valor de 1,00 corresponde à normalidade climática; acima de 1,00 significa recurso natural (água, vento ou sol) acima da média, e abaixo de 1,00 indica um mês mais fraco para essa fonte.
- Índice hídrico de 1,26 — recurso hídrico acima da média, favorecido pela gestão das albufeiras.
- Índice eólico de 0,71 — mês de vento fraco, um dos fatores que ajuda a explicar por que a eólica cedeu a liderança ao solar.
- Índice solar de 0,89 — irradiação ligeiramente abaixo da média, mesmo assim suficiente para um novo máximo de sempre em peso no consumo.
Para quem gere um sistema de autoconsumo fotovoltaico, este indicador ajuda a perceber se uma quebra de produção num determinado mês se deve a uma avaria ou, simplesmente, a condições de irradiação abaixo do habitual para a região.
Como evoluiu a produção renovável em Portugal nos primeiros sete meses do ano?
No acumulado de janeiro a julho, a produção renovável assegurou 68% do consumo nacional, com a hidroelétrica ainda a liderar o cômputo anual.
| Fonte de produção | Peso no consumo (jan.–jul.) | Índice de produtibilidade acumulado |
|---|---|---|
| Hídrica | 27% | 1,19 |
| Eólica | 24% | 1,00 |
| Solar fotovoltaica | 12% | 0,83 |
| Biomassa | 5% | — |
| Gás natural | 14% | — |
| Saldo importador | 18% | — |
O principal benefício prático é este: mesmo com um peso anual ainda inferior ao da hídrica e da eólica, a solar já lidera em pelo menos um mês do ano — e a tendência dos últimos verões aponta para que este padrão se repita e se reforce, à medida que mais potência fotovoltaica entra em operação.
Porque aumentou o consumo de eletricidade em Portugal?
O consumo elétrico nacional cresceu 3% em julho face ao mesmo mês do ano anterior (1,8% após correção dos efeitos de temperatura e de dias úteis). Nos primeiros sete meses do ano, o aumento acumulado foi de 3,5% (3,1% com a mesma correção estatística), um valor consistente com as séries estatísticas de consumo de energia acompanhadas pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).
- Maior procura associada à atividade económica e ao calor de verão (ar condicionado, refrigeração).
- Crescimento sustentado da eletrificação de novos usos, como a mobilidade elétrica.
- Efeito de calendário: variação no número de dias úteis face ao ano anterior.
Como se comportou o mercado de gás natural em julho?
O consumo de gás natural caiu 7,3% em julho, penalizado por uma quebra de 20% no segmento da produção de eletricidade — reflexo direto do maior peso das renováveis no mix nacional. No segmento convencional, que cobre os restantes consumidores, a variação foi praticamente neutra (+0,1%).
O terminal de GNL de Sines assegurou sozinho o abastecimento do sistema nacional em julho, com cerca de dois terços do gás importado a ter origem na Nigéria e o restante nos Estados Unidos. No acumulado do ano, o consumo de gás natural cresce 4,1%, puxado por um aumento de 14% no segmento da produção elétrica.
O que este recorde solar significa para o sistema elétrico português?
Em suma, Portugal está a caminhar para um sistema elétrico em que o fotovoltaico deixa de ser uma fonte secundária de verão para passar a condicionar diretamente a operação da rede, os preços do mercado grossista e as decisões de investimento em armazenamento.
Para quem opera ou acompanha ativos de energia solar, este é um sinal claro de que os meses de maior irradiação vão continuar a testar a capacidade da rede de absorver picos de produção, reforçando a importância de soluções de armazenamento em bateria e de tarifários indexados que valorizem o autoconsumo e a injeção de excedentes fora das horas de maior produção solar.
FAQ – Perguntas frequentes
Qual foi o peso da energia solar no consumo elétrico de Portugal em julho?
A energia solar assegurou 19% do consumo elétrico nacional em julho, superando pela primeira vez a hídrica e a eólica num único mês.
A energia solar já é a principal fonte de eletricidade em Portugal durante todo o ano?
Não. No acumulado dos primeiros sete meses do ano, a hídrica lidera com 27% e a eólica segue com 24%, ficando a solar em terceiro lugar, com 12%. O recorde de julho refere-se apenas a esse mês.
O que é o índice de produtibilidade solar?
É um indicador que compara a produção fotovoltaica real de um período com a sua média histórica de longo prazo. Em julho, o índice solar foi de 0,89, ligeiramente abaixo da média, mesmo assim suficiente para o novo recorde mensal.
Porque caiu o consumo de gás natural em julho?
Porque a maior produção renovável, sobretudo solar, reduziu em 20% a necessidade de gás natural para a produção de eletricidade, levando a uma quebra homóloga de 7,3% no consumo total de gás.
De onde vem o gás natural consumido em Portugal?
Em julho, cerca de dois terços do gás importado teve origem na Nigéria e o restante nos Estados Unidos, com o terminal de GNL de Sines a assegurar sozinho o abastecimento do sistema nacional.