Energias renováveis nos Açores – passado, presente e futuro

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O setor energético na região autónoma dos Açores

O setor energético nos Açores é dominado pelo consumo de combustíveis fósseis com particular destaque para o domínio dos transportes.

Atendendo à condição arquipelágica de nove ilhas dispersas geograficamente a uma distância de 1800km do continente português, à sua dimensão e à inexistência de recursos próprios que garantam a sua sustentabilidade, a dependência energética aliada à inultrapassável necessidade de transportar quase tudo de e para o exterior do arquipélago, quer seja via aérea ou marítima, faz com que o setor dos combustíveis para transportes traduza um forte impacto no orçamento regional.

E não se trata apenas de os fazer chegar à região, via marítima, mas de os distribuir e armazenar pelas nove ilhas, com o consequente impacto nos custos unitários da energia francamente atenuados pela subsidiação governamental que torna o consumo de energia ou de bens minimamente sustentável para as famílias açorianas.

Apesar deste importante impacto nas contas da região, o último relatório da Inspeção Geral de Finanças de agosto de 2012 aponta o setor energético dos Açores como o que se encontra em melhor situação sócioeconómica.

Atualmente os combustíveis fósseis contribuem em mais de 80% para o consumo energético global dos Açores. Apenas a parcela destinada à produção de eletricidade (fuelóleo e gasóleo) tem mantido uma tendência mais ou menos estagnada fruto da evolução dos sistemas de produção renovável em notável crescimento na região, sobretudo nos últimos dez anos.

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O setor elétrico

O sistema elétrico nos Açores é caraterizado pela sua pequena dimensão e dispersão. Ás nove ilhas que o compõe correspondem outras tantas pequenas redes isoladas.

A produção de energia elétrica industrial iniciou-se em 1900 na ilha de São Miguel, a maior do arquipélago, pela mão do pioneiro e irreverente Engº José Cordeiro, responsável pelo nascimento da primeira central hidroelétrica em Vila Franca do Campo.

A natural evolução dos consumos e da tecnologia determinou a incapacidade dos recursos hídricos aproveitáveis nas diversas ilhas em satisfazer as suas necessidades elétricas.

Iniciou-se então a opção por centrais térmicas a diesel e mais tarde a fuelóleo (São Miguel, Terceira, Pico e Faial).

Com um total de 218MW instalados (diesel+fuel) que garantem 72% da produção das ilhas (fonte EDA 2012).

Os restantes 28% são produzidos a partir de fontes renováveis (fonte EDA 2012):

Geotérmica (apenas em São Miguel) – 16,7%

Eólica – 7,8%

Hídrica – 3,5%

Biomassa (apenas São Miguel), Ondas (apenas Pico) e microgeração (fotovoltaica) – 0,03%

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As fontes de energia renováveis nos Açores

Energia Hídrica

A inexistência de grandes bacias hidrográficas com possibilidades de armazenamento de grandes quantidades de água condiciona o aproveitamento hidroelétrico dos Açores.

No entanto, a elevada e regular precipitação aliada ao acentuado declive das ilhas originam uma densa rede radial de drenagem ao longo dos maciços vulcânicos que permite a exploração de alguns cursos de água para produção de eletricidade.

Apesar das boas condições apresentadas pelo terreno, o aproveitamento para produção de energia elétrica não é feito de forma equivalente.

Atualmente é explorada em quatro das nove ilhas, em doze centrais mini-hídricas, que com um total de 8,3MW representam apenas cerca de 2,4% da potência instalada no arquipélago. Uma potência reduzida mas decisiva importância nas pontas dos diagramas de carga.

Energia Geotérmica

Na ilha de São Miguel, a única dos Açores e a única região de Portugal onde esta fonte primária é explorada (alta entalpia), a produção geotérmica iniciou-se em 1980 na zona do Pico Vermelho – Ribeira Grande.

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Atualmente existem duas centrais na mesma zona alimentadas por cinco poços situados no setor geotérmico do Pico do Fogo com uma potência instalada de 29,6MW (fonte EDA 2010).

Estas centrais garantem aproximadamente 40% da energia elétrica na ilha de São Miguel. A expansão da exploração deste recurso energético para outras ilhas já se iniciou. Na ilha Terceira encontra-se em curso um projeto que visa a construção de uma central piloto de 3MW.

Energia Eólica

Tem sido uma forte aposta da elétrica regional, Eletricidade dos Açores SA (EDA), existindo em todas as ilhas com exceção da mais pequena (Corvo) onde a produção é exclusivamente térmica a diesel.

Existem pouco mais de 25MW eólicos instalados (7,5% da potência total instalada no arquipélago).

Energia das Ondas

Na ilha do Pico existe uma das primeiras centrais de ondas do mundo, do tipo OWC (coluna de água oscilante). Esta central, deixada ao abandono pelas entidades governamentais, foi a primeira do mundo a ser ligada a uma rede elétrica.

Possui uma potência de 400KW e é gerida, atualmente, pelo Centro de Energia das Ondas (WavEC – Wave Energy Center). Em 2012 produziu apenas 10KWh de energia elétrica atendendo aos inúmeros problemas técnicos e estruturais que a afetam.

Energia solar fotovoltaica

Apesar de ter um peso muito residual no panorama electroprodutor da região, a micro-geração fotovoltaica tem crescido a um ritmo interessante muito à custa do programa de incentivos regional PROENERGIA.

Em 2012 verificou-se um aumento de 111% da energia adquirida pela EDA (193MWh).

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O futuro das energias renováveis nos Açores

A tendência de evolução do sistema eletroprodutor da Região Autónoma dos Açores será, obviamente e no contexto paradigmático atual, no sentido de uma cada vez maior integração de fontes endógenas renováveis.

No entanto os condicionalismos geográficos e técnicos consistentes com nove micro-redes isoladas, a necessidade de realizar investimentos em todas as ilhas garantindo a coesão regional e as contingências orçamentais necessárias em tempo de estagnação/contração económica que atravessamos, condicionam o cumprimento das políticas energéticas para o setor elétrico nos Açores.

As metas definidas para o Plano de Ação para a Energia Sustentável das Ilhas (PAESI), resultam do ambicioso conjunto de três metas do Projeto Green Islands para 2018:

60% da eletricidade proveniente de fontes renováveis;

20% da energia primária total proveniente de fontes renováveis;

35% da energia primária total utilizada sob a forma de eletricidade.

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O Plano de Ação para a Energia Sustentável das Ilhas do projeto ISLE-PACT acrescenta mais uma meta às três anteriores:

Reduzir as emissões de CO2 em pelo menos 20%, face à referência de 2005, até ao ano 2020.

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Os objetivos que se pretendem atingir com estas quatro metas são os seguintes:

– Reduzir as importações de combustíveis fósseis, de forma a incrementar a independência e segurança energética e a assegurar maior sustentabilidade económica da Região no longo prazo.

– Minimizar a contribuição para as alterações climáticas por via das emissões de gases com efeito de estufa, sobretudo considerando a influência específica de setores particularmente vulneráveis, como a agricultura e o turismo, na economia Regional.

– Estimular o desenvolvimento social e económico, através da promoção de atividades relacionadas com as fontes de energia de origem renovável, eficiência energética, planeamento urbano, mobilidade sustentável, etc.

Está em fase de projeto a construção de uma central hídrica reversível na conhecida zona das Furnas, na ilha de São Miguel. Este projeto permitirá otimizar a integração das duas fontes (geotérmica+eólica) no período do vazio, atualmente subaproveitadas por falta de consumo.

Também em fase de obtenção de financiamento encontra-se o projeto da empresa alemã Younikos que será implementado na ilha Graciosa. Este projeto ambiciona tornar a segunda mais pequena ilha do arquipélago num modelo 100% renovável integrando um parque eólico de 5.4MW, uma central solar fotovoltaica de 0.5MW e um sistema de armazenamento a baterias de 2.5MW.

A gestão do sistema será feita por um inovador sistema de gestão de energia desenvolvido pela empresa alemã que permitirá prescindir da central convencional térmica para regulação da energia. As previsões são, em média, de 70% anuais de penetração renovável.

Também está prevista a construção de duas centrais de valorização energética de resíduos sólidos urbanos nas duas maiores ilhas (São Miguel e Terceira).

Independentemente dos projetos que venham a surgir os Açores assumem-se como um laboratório natural de excelência no domínio da investigação e desenvolvimento de energias renováveis.

Sendo uma região pobre em termos económicos, a sua inequívoca riqueza em recursos naturais renováveis fazem da região um apetecível local para se estabelecerem bases de cooperação internacional no setor da energia.

Autor – Duarte Nuno Cota

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