Desafios e oportunidades no aproveitamento eólico em Cabo Verde

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Cabo Verde tornou-se um exemplo a seguir na área do aproveitamento energético a partir de fontes renováveis, nomeadamente na energia eólica.

Cabo Verde é o país que mais cresceu, em média, na utilização de energia eólica, realça o Conselho Mundial de Energia Eólica, este facto torna-se relevante para um país com um PIB tão baixo como Cabo Verde.

Segundo o presidente da Vestas Mediterrâneo, Juan Araluce, “Cabo Verde tem um enorme potencial eólico inexplorado.”; “Nós acreditamos que a energia eólica pode desempenhar um papel importante na diversificação da oferta de energia e suprir a procura crescente de Cabo Verde por estas soluções”.

Portal Energia desafiou Patrícia Santos (Owner’s Engineer at Cabeólica Wind Farm Project – Cabo Verde) para partilhar a sua experiência no acompanhamento, do até hoje considerado como melhor projecto de energias renováveis do continente Africano.

O arquipélago de Cabo Verde oferece, para além de paisagens magníficas, um dos melhores locais do mundo para a produção de energia eólica. Encontra-se numa zona com velocidades do vento constantes de 10 m/s.

Em 1994 a energia eólica foi pela primeira vez introduzida, tendo fornecido até agora apenas 2% das necessidades de energia do país.

Cabo Verde é um país dependente do combustível importado que para além de poluente é caro e sensível às flutuações dos preços e cujo transporte entre ilhas pode tornar-se um desafio. O fornecimento de energia não tem sido estável, estando os habitantes das ilhas habituados a enfrentar cortes de energia regulares.cabeolica-cabo-verde

Este projecto, detido pela empresa Cabeólica, consiste em quatro parques eólicos nas ilhas de Boa Vista, São Vicente, Sal e Santiago, no total de trinta aerogeradores, distribuídos pelas quatro ilhas, tendo capacidade de produzir até 25.5 MW de energia renovável e beneficiar cerca de 95% dos 425.000 habitantes. Finalmente no início de 2011, depois de uma década de preparação, deu-se inicio à construção dos parques eólicos.

O projecto enquadra-se na estratégia do governo cabo-verdiano de aumentar a participação das energias renováveis no arquipélago para 25% até 2011 e para 50% até 2020.

Desenvolvido por InfraCo, African Finance Coorporation, Finnfund, Governo de Cabo Verde e Electra (rede eléctrica nacional) como uma parceria público-privada com o governo de Cabo Verde e a Electra, este projecto de 65 milhões de Euros foi financiado com capital da InfraCo África, Finnfund e a African Finance Corporation, e o financiamento da dívida pelo Banco Europeu de Investimento e o Banco Africano de Desenvolvimento.

Considerado como o Melhor Projecto Renovável de 2011, foi premiado pelo Energy Awards África. Foi escolhido por ser a primeira Parceria Público-Privada (PPP) à escala comercial na África Sub-Saariana.

Este é um projecto único na região e na sequência apresento algumas das razões:

  • Sendo o primeiro projecto à escala comercial do seu tipo foi necessária uma complexa adaptação dos modelos de Project Finance para o quadro regulatório local.
  • Recebeu grande interesse de investidores e financiadores principalmente devido à súbita propulsão do país para uma posição de liderança na produção de energia eólica na região.
  • Devido ao tipo de financiamento pretendido para o projecto, os promotores procuraram definir os mais elevados padrões de avaliação ambiental, e ao fazê-lo, foram bastante além das exigências locais, incluindo a realização de reuniões com as partes interessadas antes da apresentação do Estudo de Impacto Ambiental (não obrigatório pela legistação Cabo Verdiana) e criação de um minucioso Plano de Gestão Ambiental e Social para os 20 anos de vida útil previsto. Este PGAS inclui a integração generosa de vários programas de conservação e educação que vão para além da responsabilidade imediata da empresa. O trabalho realizado para o EIA foi apresentado durante uma conferência da BWEA (British Wind Energy Association).

Para o êxito do desenvolvimento deste projecto foi necessário superar alguns desafios técnicos. Como já foi mencionado os parques eólicos estão divididos em quatro ilhas, o que significa que a integração da energia eólica é efectuada em quatro redes distintas, cada uma com as suas próprias características e complexidades.

Para avaliar as limitações, foi realizada uma análise dinâmica das redes eléctricas para as quatro redes em questão.

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Outro desafio importante é o de superar as limitações da rede, dado que estamos a lidar com quatro redes eléctricas pequenas e isoladas, e em alguns casos com equipamentos muito antigos e sem qualquer centro de despacho.

Enquanto o Governo e a Electra continuam a empenhar-se para reunir as condições para implementar um centro de despacho automático e modernizar a infra-estrutura da rede eléctrica, a capacitação de pessoal tem sido uma peça muito importante para minimizar os constrangimentos.

Com este projecto foi pela primeira vez contemplando a migração de quase 100% diesel para um sistema híbrido diesel-eólica, tornando-se assim fundamental a formação/informação de todos os operadores do sistema. Para isso a Cabeólica, em conjunto com o seu parceiro tecnológico (Vestas) já realizou várias acções de formação conjuntas com a Electra.

Para garantir o sucesso deste projecto, a Cabeólica contratou especialistas das mais diversas áreas, incluindo líderes mundiais em análise de vento: RISO e consultoria SKM, CME, Megajoule, etc …

A 20 de Abril de 2012 foi inaugurado o último parque eólico, de três turbinas, na ilha da Boa Vista tendo participado no evento o primeiro-ministro Dr. José Maria Neves, o ministro da Indústria e Energia Dr. Humberto Brito, os parceiros do projecto e outros convidados.

Nas quatro inaugurações presididas pelo Sr. Primeiro Ministro foi denominador comum do seu discurso a preocupação que o Governo demonstra sobre a importância para Cabo Verde em ter acesso a energia mais barata e não poluente. A falta de água e electricidade e o seu elevado preço têm sido um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento económico e criação de emprego e, portanto, uma das principais razões do êxodo da população.

Embora o turismo tenha vindo a aumentar nas últimas décadas, e Cabo Verde conte já com grandes cadeias de turismo internacionais, é sentimento comum da população que poderia haver mais investimento estrangeiro nesta área se o país oferecesse melhores condições (energia e água) que não só iria contribuir para o aumento do turismo como para o aumento dos postos de trabalho. É hoje ainda uma realidade que muitos cabo-verdianos continuam a sair do país em busca de emprego e de um futuro melhor.

O sucesso da conclusão deste projecto, que foi extremamente desafiante em termos de construção pelos mais variados motivos: ventos constantes, dificuldades logísticas e burocráticas, falta de recursos materiais locais, etc, só foi possível pelo elevado compromisso e profissionalismo de todas as entidades envolvidas, tendo sido muito relevante o apoio constante por parte do governo na agilização de todo o processo.

O projecto foi construído em “chave-na-mão” pelo fabricante líder mundial, Vestas, tendo contado com a participação de várias empresas Portugueses e Espanholas.

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Foi muito gratificante para mim ter participado neste projecto no qual tive a oportunidade de conhecer um país maravilhoso, de características únicas, e cujas pessoas sabem tão bem receber quem vem de fora, tendo também a oportunidade de trabalhar com empresas mundiais e profissionais com larga experiência no desenvolvimento e implementação de projectos de energias renováveis.

A minha contribuição para este projecto foi monitorizar, em nome do dono de obra (Cabeólica) a execução e cumprimento do contracto de engenharia, fornecimento e construção celebrado entre a Cabeólica e a Vestas, estando como engenheira residente subcontratada pela Cabeólica.

As minhas responsabilidades envolveram a supervisão do contrato com vista a preservar os direitos do promotor bem como a gestão de riscos e obrigações. Isto inclui a análise e comentários detalhados do contrato, dos desenhos técnicos de engenharia, especificações e documentos submetidos.

Revisão, acompanhamento e avaliação da conformidade com as especificações técnicas. Assegurar o cumprimento das obrigações decorrentes do contrato em termos de garantia e controlo de qualidade. Assegurar a conclusão e testes das instalações em conformidade com o Acordo de Compra de Energia (PPA) e dos contratos associados. Dar suporte na contratação e formação da equipa técnica da Cabeólica, para garantir que os recursos adequados estavam preparados para a execução eficaz e atempada dos projectos.

Nas questões de segurança e ambiente dei suporte na monitorização ambiental e da segurança durante a construção e ajudei a Cabeólica na execução e implementação da politica de segurança e seus regulamentos.

Estando neste momento concluída a construção de todos os parques eólicos e todos em fase de operação a Cabeólica vende a energia que produz à rede eléctrica nacional, representando cerca de um quarto de energia eléctrica do país.

A restante capacidade de geração da rede eléctrica nacional é baseada em motores diesel/fuel. As quatro ilhas dispõem agora com um sistema de energia híbrido diesel-eólica, contando com elevados níveis de penetração, tendo sido já registado 50% de penetração de energia eólica na ilha de São Vicente.

“A grande penetração de energia eólica torna a gestão da estabilidade da rede mais difícil. Juntamente com o nosso cliente Electra, agora estamos concentrados na optimização do fornecimento de energia para que a rede permaneça estável, com objectivo de maximizar os benefícios dos parques eólicos”, diz o CEO da Cabeólica Herkko Lehdonvirta.

Fornecendo cerca de 25% da energia deste país e contribuindo para uma redução de custo de produção de energia de cerca de 20%, a Cabeólica deve estar orgulhosa pela grande importância e impacto, deste projecto, para todos os cabo-verdianos que podem contar agora com uma melhor qualidade de vida através do acesso a mais e melhor energia e a maior disponibilidade de água, dado que esta é produzida por dessalinização, para a qual a energia é necessária.

Por fim gostaria de partilhar que foi para mim um orgulho poder contribuir num projecto de tanta importância e relevância como este para a economia e qualidade de vida de todos os cabo-verdianos.

Contactos da Autora

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Patricia Santos

psantos@pacger.com

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